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Diretas Já: a campanha de 1984 que encheu as ruas

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Na noite de 25 de abril de 1984, o plenário da Câmara dos Deputados rejeitou por 22 votos a emenda que restabeleceria as eleições diretas para presidente da República. A derrota encerrava a maior campanha de rua da história brasileira: em quatro meses, a exigência de "Diretas, Já!" tinha colocado milhões de pessoas em comícios do Rio a Porto Alegre, amarelo nas ruas, panelaços nas janelas e o regime militar contra a parede. O Congresso disse não; a história diria que a campanha venceu mesmo assim.

A Campanha das Diretas ficou na memória como a grande festa cívica da transição — e na análise política como o paradoxo maior do período: um movimento que perdeu no Parlamento a votação que pediu e, mesmo assim, enterrou a legitimidade do regime. Reconstruir seus quatro meses ajuda a entender por que a redemocratização brasileira foi feita ao mesmo tempo de mobilização e de negociação, de rua e de Colégio Eleitoral.

Vista aérea de grande vale urbano cercado de edifícios históricos no centro de metrópole, ruas vazias

A emenda Dante de Oliveira

A brecha institucional veio de dentro do próprio Congresso. Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, protocolou uma emenda constitucional que devolvia ao povo a escolha do presidente já na sucessão de João Figueiredo, marcada para o Colégio Eleitoral de janeiro de 1985. Como o sistema eleitoral indireto estava na Constituição de 1967, a mudança exigia dois terços dos votos das duas casas reunidas — 320 dos 479 congressistas aptos a votar.

O que começou como manobra parlamentar de oposição ganhou as ruas quando os primeiros comícios mostraram o tamanho da adesão. A campanha era transversal: reunia o PMDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, o PDT de Leonel Brizola, o PT de Lula, os movimentos sociais, os sindicatos reunidos na recém-fundada CUT, a Igreja e setores empresariais. Até o governo rachava: o vice-presidente Aureliano Chaves declarou-se favorável às diretas, e o ministro Mário Andreazza abandonou o cargo defendendo a emenda.

Os comícios que fizeram história

O calendário de 1984 virou roteiro de multidões. Em janeiro, o comício na Praça da Sé, em São Paulo, reuniu centenas de milhares de pessoas e definiu o tom: palanque partilhado, faixas amarelas e a palavra de ordem única. Em abril, a campanha atingiu o auge com dois atos em sequência — no Rio de Janeiro, na Candelária, e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no dia 16, com estimativas que passam de um milhão de pessoas, a maior concentração política já registrada no país.

A televisão foi personagem à parte. A TV Globo, maior rede do país, ignorou os primeiros comícios e só passou a cobrir a campanha quando o movimento já era impossível de esconder — omissão que a própria emissora reconheceria décadas depois, em 2013, como erro editorial. No rádio e nos jornais, a cobertura ampla compensou o silêncio: as caras dos comícios, as frases dos oradores e a contagem regressiva para a votação dominaram o noticiário do outono de 1984.

MarcoDataResultado
Emenda Dante de Oliveira protocoladamarço de 1983Pedido de eleições diretas entra na pauta do Congresso
Comício da Praça da Séjaneiro de 1984Centenas de milhares lançam a campanha nacional
Comício da Candelária, Rioabril de 1984Multidão no centro histórico carioca
Comício do Vale do Anhangabaú16 de abril de 1984Mais de um milhão de pessoas, segundo estimativas
Votação da emenda25 de abril de 1984298 votos a favor; precisava de 320 — rejeitada
Colégio Eleitoral15 de janeiro de 1985Tancredo Neves eleito com 480 votos
Interior vazio de plenário de câmara legislativa com fileiras de mesas e painel de votação apagado

A noite de 25 de abril

A votação foi transmitida ao vivo e seguida como uma final de campeonato. O governo Figueiredo jogou pesado: liberação de emendas para deputados fiéis, pressão sobre governadores e a cláusula de fidelidade imposta aos partidos da base. Quando o painel apagou, o placar era 298 a favor, 195 contra e três abstenções — faltaram 22 votos. Na Câmara, deputados choraram; nas ruas, o luto durou pouco: no dia seguinte, os líderes da campanha já tratavam do passo seguinte, a eleição indireta.

A análise dos votos explica a derrota sem reduzi-la a traições. O Nordeste e o Norte, regiões onde o peso das máquinas estaduais era decisivo, entregaram a maioria dos votos governistas; a ausência de dezenas de congressistas no plenário pesou tanto quanto os votos contrários. E havia o argumento de ordem que ainda colava em parte do país: o temor, alimentado pelo regime, de que a eleição direta abrisse caminho para a instabilidade — o mesmo discurso que justificara 1964.

O que a derrota construiu

A rejeição da emenda não devolveu fôlego ao regime; acelerou seu fim. Desmoralizado nas ruas, o governo assistiu à migração de parte de sua base para a Frente Liberal, que se uniu ao PMDB na Aliança Democrática e elegeu Tancredo Neves no Colégio Eleitoral de janeiro de 1985 — a primeira vitória da oposição numa disputa presidencial desde 1960. A morte de Tancredo, em 21 de abril de 1985, sem que tomasse posse, completou a tragédia da transição: o país saiu da ditadura sob o comando de José Sarney, o vice que havia presidido o partido do regime.

A campanha deixou ainda marcas duradouras na cultura política:

  • A descoberta, por uma geração, da política de rua: milhões participaram pela primeira vez de um ato público, repertório que reapareceria nas mobilizações seguintes, do Fora Collor às jornadas de junho de 2013.
  • A consagração do amarelo como cor cívica nacional, depois ressignificado por outros movimentos.
  • A prova de que a Constituição era o campo de batalha central — lição que orientou a mobilização social na Constituinte de 1987-1988, com as emendas populares.
  • A naturalização das eleições diretas: a partir de 1989, o voto direto para presidente virou rotina tão evidente que custa lembrar que esteve proibido por 29 anos.

Memória de uma campanha vencida e vitoriosa

Quarenta anos depois, as Diretas ocupam um lugar raro na memória brasileira: o de derrota comemorada. Escolas, praças e monumentos lembram os comícios de 1984, e a data de 25 de abril é revisitada a cada ciclo de ameaça à democracia — como se o país se lembrasse de que já esteve, uma vez, a 22 votos de mudar sua história pelo voto, e de que a resposta da rua foi o que garantiu o resto do caminho.

Para a historiografia, a campanha permanece como evidência de que a transição brasileira não foi apenas negociada de cima, como sustentou durante anos a versão dos próprios militares. Houve pacto, sim — mas houve também um milhão de pessoas no Anhangabaú, e nenhum pacto se explica sem elas. É essa combinação de negociação e pressão popular que faz de 1984 o ano em que o Brasil começou, de fato, a voltar a ser uma democracia.

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