Prezada Censura
A discussão recentemente provocada pelo comercial em que Gisele Bündchen aparece de roupas íntimas decorre de uma preocupação com o tratamento dado às mulheres. Algumas pessoas afirmam que o cuidado é exagerado e que proibir o comercial seria um ato de censura. O debate lembra, de algum modo, a preocupação que o regime militar tinha com a chamada “censura moral”, isto é, a censura de costumes que atingia o cinema, o teatro, a TV, a música etc. A TV foi muito atingida. Curiosamente, mesmo a Rede Globo – cujo jornalismo apoiava o regime – enfrentava problemas.
O Fantástico , por exemplo, somente podia ser censurado previamente em parte, pois muitos quadros do programa eram feitos ao vivo, gerando conflitos com o censor que se instalava na emissora durante a transmissão. A grande preocupação da censura do regime era com a exposição do corpo feminino, mas o público também pedia censura. Quando, no programa matinal TV Mulher , também da Globo, a sexóloga (e hoje senadora) Martha Suplicy mostrou um desenho da vagina, a reação de um telespectador foi imediata, escrevendo à censura, pois, para ele, o ato “foi revoltante, imoral, indecente e pornográfico”. O censor respondeu dizendo que o programa era de bom nível.
Muitas pessoas escreviam cartas para a Divisão de Censura pedindo mais censura. Em muitas cartas as mulheres eram tratadas como incapazes: “nossas mulheres, dotadas, mentalmente, igual à criança, absorvem todas essas imundícies [da TV]”. Um filme como D. Flor e seus dois maridos “só deveria ser exibido para homem”, escreveu um cidadão. De outro lado, a presença erótica de mulheres na TV, como no caso das que dançavam em programas de auditório, ofendia ou excitava, pois muitas reclamações quase chegavam a ser eróticas: “manecas despudoradas e de formação duvidosa”; “mulheres exibem sensualmente suas exuberâncias [...] balançando licenciosamente seus exuberantes mamões”.
Mesmo a publicidade das “precauções da higiene feminina” causava desconforto, inclusive entre algumas mulheres, que não gostavam de ser lembradas, a todo momento, de “nossa tão mísera condição”. Depois de assistir ao filme A dama do lotação , assim se expressou a autora de uma dessas cartas: “sinto nojo de ser mulher. Estou com vergonha de me olhar no espelho”. As cartas dirigidas às autoridades são documentos fascinantes para o historiador. Mostram aspectos por vezes inesperados. Todos conhecemos a luta contra a censura, que mobilizou órgãos de imprensa, jornalistas, artistas etc. Uma parcela da sociedade, entretanto, apoiava e exigia mais censura.
Como a “senhora doente” que escreveu em nome de “50 mães de família” pedindo que fossem censurados os programas de TV que contivessem “bandalheira, falta de moral e falta de respeito”. Ela iniciava sua carta da seguinte maneira: “Prezada Censura”.