Guerrilha do Araguaia: a guerra escondida na selva
Entre 1972 e 1974, o Exército brasileiro travou na região do rio Araguaia, no sudeste do Pará, a única campanha de contraguerrilha de sua história contemporânea — e conseguiu escondê-la da população por mais de uma década. Do outro lado estavam cerca de setenta militantes do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, instalados na mata desde 1966 para preparar, no projeto do partido, uma guerra popular prolongada. Quase todos morreram; dezenas seguem desaparecidos até hoje.
A Guerrilha do Araguaia voltou ao centro do debate público por dois caminhos. O primeiro foi a persistência dos familiares dos mortos e desaparecidos, organizados desde 1980 em comissões que exigiam informações. O segundo foi a condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Gomes Lund, em novembro de 2010, que declarou a Lei da Anistia incompatível com a obrigação de investigar crimes contra a humanidade. A história do Araguaia é um capítulo militar e, ao mesmo tempo, um laboratório do que o Estado brasileiro aprendeu a ocultar.

Da cisão comunista à escolha do campo
O PCdoB nasceu da cisão de fevereiro de 1962, quando um grupo de dirigentes expulsos ou dissidentes do Partido Comunista Brasileiro reorganizou o partido com o nome histórico e adotou a linha da luta armada, inspirada na experiência chinesa. Depois do golpe de 1964, a direção do PCdoB concluiu que a resistência ao regime deveria se instalar no campo, e a região escolhida foi o médio Araguaia: fronteira agrícola em expansão, presença precária do Estado e conflitos fundiários permanentes entre posseiros e grileiros.
Entre 1966 e 1967, os primeiros militantes chegaram disfarçados de comerciantes, professores e pequenos proprietários. Fixaram-se em torno de Xambioá e de São Geraldo do Araguaia e mantiveram por anos uma vida dupla: de dia, vizinhos úteis que vendiam remédios e alfabetizavam crianças; à noite, quadros que estudavam tática e esperavam reforços. A maioria era jovem, urbana e sem nenhuma experiência de mata.
As três campanhas militares
O aparato de informações do regime detectou a movimentação ainda em 1971, a partir de prisões e documentos apreendidos no Rio de Janeiro. Em abril de 1972, a primeira campanha do Exército surpreendeu os guerrilheiros, que reagiram com emboscadas e chegaram a capturar um oficial. A resposta foi a escalada: novas unidades, controle militar da região e a instalação de uma base de inteligência e interrogatório em Xambioá, conhecida pelos moradores como Casa Azul.
| Campanha | Período | Efetivo estimado | Desfecho |
|---|---|---|---|
| Primeira | abril a junho de 1972 | cerca de 1.000 homens | Guerrilheiros escapam e emboscam patrulhas |
| Segunda | segundo semestre de 1972 | alguns milhares de homens | Grupo de guerrilheiros se divide em três setores isolados |
| Terceira (Operação Marajoara) | outubro de 1973 a outubro de 1974 | mais de 5.000 homens no auge | Aniquilamento quase completo dos três grupos |
A terceira campanha, batizada de Operação Marajoara, aplicou a doutrina que os relatórios militares chamavam de guerra de informações: o objetivo não era apenas combater, mas controlar a população, cortar o contato entre guerrilheiros e camponeses e esgotar os grupos pela fome e pelo isolamento. A Comissão Nacional da Verdade registrou, décadas depois, denúncias de bombardeios aéreos e de tortura sistemática de moradores. Divididos em três grupos que não conseguiam se comunicar, os guerrilheiros foram destruídos um a um entre o fim de 1973 e 1974.

A morte dos guerrilheiros e o silêncio oficial
Entre os mortos estavam Osvaldão, o mineiro Osvaldo Orlando da Costa, ex-atleta olímpico de boxe e principal comandante militar da guerrilha, e Maurício Grabois, presidente do PCdoB e filho de fundador do partido, morto em dezembro de 1973. Os relatos reunidos depois por familiares, pesquisadores e pela CNV indicam que parte dos capturados foi executada após interrogatório e que os corpos foram enterrados em valas na mata ou como indigentes no cemitério de Xambioá, sem registro dos nomes verdadeiros.
O silêncio foi obra de engenharia, não de acaso. O regime combinou vários mecanismos:
- Censura obrigatória: jornais só podiam publicar sobre o assunto com autorização, e as versões oficiais mudavam conforme a conveniência — ora negavam qualquer combate, ora admitiam "operações de rotina".
- Ocultação de corpos: mortos registrados como indigentes ou sem qualquer registro, o que transformou o desaparecimento em arma jurídica — sem corpo, não havia processo.
- Sigilo institucional: os documentos das operações ficaram retidos nos órgãos militares de informação, fora do alcance de familiares e da Justiça.
- Intimidação local: camponeses que viram prisões e execuções foram coagidos ao silêncio por décadas.
Os familiares e a reparação tardia
A primeira brecha veio da sociedade civil. Em 1980, ainda sob a ditadura, familiares de mortos e desaparecidos políticos fundaram sua comissão, com apoio de entidades religiosas e da Ordem dos Advogados do Brasil. Dois anos depois, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública exigindo informações sobre os desaparecidos — o caso arrastou-se por décadas sem que as Forças Armadas entregassem os paradeiros. Em 1991, uma exumação no cemitério de Xambioá localizou ossadas.
A virada jurídica veio de fora. Em 24 de novembro de 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil no caso Gomes Lund e outros, afirmando que as disposições da Lei da Anistia que impedem a investigação de graves violações carecem de efeitos jurídicos. A Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012, dedicou um capítulo ao Araguaia e confirmou camponeses entre as vítimas — mortos sob tortura ou executados por colaborar com os guerrilheiros.
O Araguaia na memória e na historiografia
A guerrilha virou tema de cinema, literatura e pesquisa acadêmica. O documentário Peões, de Eduardo Coutinho, lançado em 2004, ouviu camponeses e ex-combatentes na região e mostrou como a memória local ficou marcada pelo medo. Historiadores dedicaram teses à doutrina de contraguerrilha e ao destino dos documentos, e a obra de Elio Gaspari popularizou o episódio. Em 2009, a descoberta de novas ossadas no cemitério de Xambioá reacendeu as buscas coordenadas pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.
Mais de cinquenta anos depois, o Araguaia continua sendo a ferida documental mais visível da ditadura brasileira: o caso em que o Estado matou, escondeu e nunca entregou os corpos. Para os pesquisadores, o episódio resume o problema maior — a luta pela memória no Brasil não é disputa sobre interpretações, mas sobre acesso: enquanto houver documentos retidos e sepulturas sem nome, o capítulo segue aberto.