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Operação Condor e o Arquivo do Terror

Ditadura e Memória · Brasil Recente

Em dezembro de 1992, um juiz e um advogado de direitos humanos entraram numa delegacia de Lambaré, subúrbio de Assunção, e encontraram toneladas de papéis empilhados até o teto: fichas, telegramas, fotografias e relatórios da polícia política da ditadura de Alfredo Stroessner. O achado, batizado de Arquivo do Terror, documentava com riqueza inédita a Operação Condor — o sistema de cooperação repressiva que ligou as ditaduras do Cone Sul nos anos 1970 e transformou o continente inteiro em território de caça.

Meio século depois de sua criação, a Operação Condor segue produzindo sentenças, documentos e debates. O Brasil participou do circuito, e os papéis paraguaios confirmaram o que os pesquisadores suspeitavam: as fronteiras não protegiam ninguém — a repressão viajava livre, com passaportes falsos, aviões militares e a cumplicidade de seis Estados.

Armário metálico de arquivo com gavetas abertas repletas de fichas de papel antigas

O que foi a Operação Condor

A cooperação entre os aparatos repressivos do Cone Sul existia antes de ter nome, mas ganhou estrutura formal em novembro de 1975, quando representantes dos serviços de inteligência de Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia se reuniram em Santiago, a convite de Manuel Contreras, chefe da DINA, a polícia secreta de Augusto Pinochet. O Brasil enviou observadores e integrou o sistema trocando informações e prisioneiros, sem participar das operações mais sangrentas em território próprio. O objetivo declarado era coordenar a perseguição a opositores exilados — na prática, montar um mecanismo transnacional de sequestros, torturas e assassinatos.

O sistema funcionava em fases. A primeira era o intercâmbio de informações e a vigilância de exilados; a segunda, a localização, o sequestro e a entrega de prisioneiros ao país de origem; a terceira, mais clandestina, envolvia ações de extermínio fora da América do Sul, com o apoio logístico de regimes aliados. Estima-se que centenas de pessoas foram vítimas diretas do circuito — sem contar os milhares de desaparecidos que cada ditadura produziu internamente e cujos rastros o Condor ajudava a apagar.

Os crimes que marcaram o sistema

Alguns episódios tornaram-se emblemáticos da lógica transnacional do Condor:

  • O assassinato do ex-ministro chileno Orlando Letelier e da norte-americana Ronni Moffitt, mortos por um carro-bomba em Washington, em setembro de 1976 — ação da DINA em plena capital dos Estados Unidos.
  • A tentativa de assassinato de Bernardo Leighton, líder democrata-cristão chileno, baleado em Roma em outubro de 1975.
  • O sequestro e assassinato, em Buenos Aires, de Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez Ruiz, parlamentares uruguaios exilados, mortos em maio de 1976 junto com os militantes argentinos Rosario Barredo e William Whitelaw.

O Brasil aparece nos documentos sobretudo como ponto de passagem e de troca: opositores estrangeiros presos em território brasileiro eram entregues aos serviços de seus países, e agentes do Cone Sul operaram em cidades como São Paulo e Porto Alegre. As comissões da verdade e pesquisas posteriores documentaram casos de uruguaios e argentinos capturados no Brasil e devolvidos à repressão de origem — engrenagem que funcionava sem tratado formal, à base de telegramas e telefonemas entre serviços.

O Arquivo do Terror

A descoberta de 22 de dezembro de 1992 mudou a pesquisa sobre o período. O advogado e ex-preso político Martín Almada, que procurava provas de sua própria prisão, recebeu a pista de que a documentação da polícia política de Stroessner — derrubado apenas em 1989, depois de 35 anos no poder — estava guardada numa delegacia de Lambaré. O juiz José Agustín Fernández autorizou a busca, e o que apareceu foi um acervo de centenas de milhares de documentos, hoje organizado no Palácio de Justiça de Assunção.

Os papéis paraguaios confirmaram, com datas, nomes e rotas, a existência operacional do Condor: registros de vigilância a exilados, pedidos de captura trocados entre serviços, relatórios de interrogatório e provas de transferências ilegais de prisioneiros. O acervo revelou também a extensão continental da vigilância — havia fichas sobre ativistas, intelectuais e até diplomatas de vários países. A Unesco inscreveu o Arquivo do Terror em seu programa Memória do Mundo, reconhecendo-o como patrimônio documental da humanidade.

MarcoAnoSignificado
Reunião fundacional em Santiago1975Formalização da cooperação entre cinco serviços, com o Brasil como observador
Assassinato de Orlando Letelier em Washington1976Ação da DINA em solo norte-americano
Descoberta do Arquivo do Terror1992Comprovação documental do sistema em Lambaré
Sentença do julgamento Condor na Argentina2016Condenação de réus pelo plano sistemático
Condenações no julgamento de Roma2021Responsabilização por crimes contra uruguaios
Mapa antigo da América do Sul sem texto legível sobre mesa de cartógrafo com lupa e réguas

Os julgamentos

A responsabilização judicial veio tarde, mas veio. Na Argentina, o julgamento conhecido como causa Cóndor, aberto com base em pesquisas que reuniam vítimas de vários países, terminou em maio de 2016 com a condenação de réus do aparato repressivo pelo plano sistemático de perseguição — decisão histórica por tratar o Condor como associação ilícita transnacional, e não como soma de crimes isolados. Na Itália, o julgamento sobre o assassinato de cidadãos ítalo-uruguaios e ítalo-argentinos resultou, em 2021, em condenações de militares do Cone Sul, com sentenças de prisão perpétua.

No Brasil, a justiça não chegou ao mesmo ponto: a interpretação da Lei da Anistia consolidada pelo Supremo Tribunal Federal em 2010 barrou ações penais contra agentes da repressão, e os casos ligados ao Condor ficaram sem desfecho criminal.

O que os arquivos ensinam

A história documental do Condor é uma lição sobre o valor dos arquivos policiais. Os mesmos papéis produzidos para vigiar e eliminar tornaram-se, trinta anos depois, a prova que sustentou condenações e processos de reparação. É o paradoxo conhecido de todos os arquivos da repressão — dos dossiês do DEOPS aos dossiês da Stasi: o documento do carrasco serve, no fim, à vítima. A preservação do acervo de Lambaré, feita com apoio internacional nos anos 1990, mostrou o que o Brasil arriscava perder com a destruição e o sigilo de seus próprios documentos militares.

A Operação Condor também mudou a forma de escrever a história da ditadura brasileira. Em vez de um caso nacional isolado, o regime de 1964-1985 passou a ser lido como parte de um sistema regional, conectado às ditaduras vizinhas e à Guerra Fria — leitura consolidada pela abertura dos arquivos norte-americanos. Meio século depois da reunião de Santiago, os papéis de Lambaré continuam falando; a pergunta que permanece é quantos arquivos do mesmo circuito ainda esperam, trancados, a sua vez de contar o que viram.

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